sexta-feira, 23 de julho de 2010

cada um no seu canto
corpos derrentendo por onde quer que se encostem...
arvores fincando raízes fundo por demais...
que ordem é essa?
nem nada de bom sai dessa pena!
nem nada de grito sai dessa garganta!
silêncio contido grito abafado grunhido rouco cadê cadê cadê...
cadê a palavra a emocão a sensação???
.
.
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desce a escada, enche teu copo dágua, volta pra algum lugar, fumar, descansar, pro resto do dia descansar, esperar, escapar a qualquer investida de afeto transviado... volta depois de um tempo, engole teu grito e todas tuas palavrianhas sem sabor. vê se contém dentro de ti tua pretensiosa ingratidão. afinal, os cachorros que te rodeiam são mais loucos que você. será que há de ser de você querer um dia ser tão louco como aquela força que te faz obedecer???

sábado, 24 de abril de 2010

ANTI - HISTÓRIA

I

A história é uma matéria, acreditem, extremamente conservadora. Conservadora! Sabiam? Todos reconhecem as contribuições dos pós-ismos. Mas calma lá - (o remédio da modernidade provoca surtos de auto-controle contemporâneos) usam tudo com moderação - não nos percamos por muito tempo no universo sem fim. Não se faz história sem rigor histórico! - Bradam os heróis da soberania disciplinar. E a maior reivindicação é essa: "somos uma disciplina!" Assim os bravos historiadores partem para a cruzada de disciplinar os praticantes da história; apresentam-lhes suas ferramentas exclusivas, seus métodos obrigatórios, suas normas, estilísticas suas regras de investigação, seus sistemas de segurança... em suma, suas verdades! Ah, terrível palavra, assustador paradoxo dos intelectos evoluídos... sim, verdades, sem as quais você não está autorizado a dizer que se acha um praticante da história.
"Cadê meu chão?", parecem reclamar esses beberrões de gorda produção intelectoyotista. Modernos adoradores da ordenologia das singularidades acontecimentais, têm medo do vazio. Mal sabem eles que não se vive sem o vazio, terreno das felicidades. Esquecer, esvaziar, dessignificar... mas isso seria o fim de tudo que os fia em posição de legitima identidade. Que medo de perder o osso departamental! À merda! Não percebem que foi a divisão quem falhou? Que as valas de segregação por eles cavadas e defendidas é que devem ser cobertas... para que as almas possam circular livremente pela pradaria lisa... e nos trombarmos, nos estranharmos, nos fudêrmos...
Trepar eternamente, com tudo, com todos, em tudo, por todos. O êxtase pleno depende do fim do apartheidt expressionista dos filhos do deus ratio. Seremos experiência laboratoria do nosso passado cognoscível até quando?

II

O maior pecado do historiador - aquele do qual ele foge com o mesmo assombro que um cristão foge de sua culpa, com a mesma obstinação que Édipo foge de seu destino - é precisamente o único que ele sempre cometerá, não uma, mas todas as vezes que ele se debruçar sobre a tentativa de olhar para trás do seu próprio e intangível presente. O nome de seu fantasma (e de sua culpa) é: anacronismo...

III

Disse o homem que habita as pradarias de cá ter descoberto que a grama crescia com o sol e com a chuva. Descobriu ele mais tarde exatamente quais substâncias que, estando presentes na terra onde crescia a grama, eram também vitais para o seu crescimento. Mas na casa desse homem, e depois de tantas descobertas, a grama se encontrava toda revolvida, e secas estavam cada uma de suas radículas. Até mesmo o sol e a chuva hoje encontram dificuldades em chegar perto do chão.
Antes do homem habitar tais pradarias de cá, nada se sabia sobre o crescimento da grama, nem sobre sua relação com o sol e a chuva e as abundâncias da terra jaziam na mais completa ignorância. Entratanto, sem nunca ninguém ter sabido o que era a grama, ou que ela existia por isso e por aquilo, ela existia, e nunca antes tinha deixado de crescer.

IV

Nas pradaria de lá haviam homens também, corria o boato de que lá a grama não morrera. Alegraram-se os da pradaria de cá ao saber da notícia. Atravessaram as três cordilheiras que os separavam para conhecê-los. Ao primeiro contato se frustraram absurdamente: os da pradaria de lá eram todos cegos, e pareciam não entender uma só palavra das que os de cá tagarelavam e ensinavam. Ninguém entendeu como e porque, aqueles bárbaros cultivavam um hábito absolutamente inútil: em todos os pôr-dos-sóis deitavam-se na grama e pareciam fingir que viam!

V

O que aconteceu então é sabido de todos. Os de cá entraram em guerra com os de lá porque aqueles nada sabiam sobre a grama na qual pisavam e nem estavam dispostos (ou aptos) a aprender. Como esses temiam que a grama se extinguisse por causa da ignorância daqueles, tomaram-lhes as pradarias e as vidas. Como a grama tivesse se amarelado após a contenda, nada restou aos homens da pradaria de cá senão contar a história do verde que lhes iluminara os olhos no passado. Desde então, e milênios adiante, todos os filhos dos filhos dos homens da pradaria de cá se dedicam a tentar reconstruir o verde anscestral em versos e prosas, mesmo assim, suas linhas nunca atingiram mais do que um fraco e debil amarelo.



sexta-feira, 9 de abril de 2010


Cigarro
ou cravo
texturas macias
de palavras vazias
a bruma da noite fria
o sol-sorrindo-ardia
nada mais vulgar:
o plantar dos pés no chão
o nadar no nada
um breve instante
em que o farfalhar dos galhos verdes
se confunde com a batalha do seu coração
subi no telhado
voltei alado
evanesco - de novo...
...sou passado

Considerações sobre o Capitalismo

I

Que coisa é essa que nos ameaça? Que nos enquadra? Que nos normatiza, que nos desarma, nos dilui, neutraliza, aprisiona, seca, mata!? Que lugar é esse onde nos enxergamos, que nos identifica, nos conecta? Que força é essa que nos atravessa sem que a vejamos; força superior a todos, etérea, inatacável? Maldita força dos números? Bendita razão eterna inblasfemável! Somos nós... homens. Homens-no-tempo. Homens-sem-tempo. Contemporâneos, éticos, verdadeiros. Donos do tempo e de tudo!... e sequer de nós mesmos.

II

Nosso mundo tá muito confuso, muito... Talvez nunca antes tenhamos estado tão confusos quanto hoje estamos. O que está acontecendo? É muita coisa, tanta coisa, tão rápida e fugidia coisa... Cadê o tempo? Mal se fala dele, o tempo já passou, já virou outro tempo, já nao tem tempo de ser o tempo. Ninguém sabe de tudo, ninguém sabe de nada... mas todo mundo corre. Corre com o tempo corre sem tempo, corre para além dele, em fios, em células, dnas, ar, vácuo... Sei lá, não sei... Tá tudo aí, em lugar nenhum!
Hobsbawm chamou nosso breve século XX de "era dos extremos". O que será então do nosso volátil século XXI? O que vem depois dos extremos? O que sucede o Pós-moderno? O que mais poderá nos assombrar? A instabilidade vaporosa de todas as coisas e relações? Ou a impassível estabilização de tudo, o esvaziamento de todos os corpos?

Axioma:

Capitalismo
É tudo culpa dele
Ele é todo nossa culpa


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

...e se eu escrevesse aqui agora alguma coisa assim quase que sem sendido e sem demora sei que não faria mal nem bem, apenas ficaria mais fora do que dentro uma qualquer coisa que não da pra conter em mim.
...essa coisa é assim, se extravaso sou besta, se escondo sou careta e se esqueço sou normal.
...tenho em mim ainda essa coisa assim besta-careta-e-normal, mas sou louco e sensual se disparo em conta-gotas um desamparo emocional num verbo não racional, bem além do causal e bem aquém do casual.
...suei a noite toda sabia? tentei pular de dois prédios de dezessete andares ontem de manhã... porra, o chão insiste em me acordar!
...Tudo mentira!!! velho louco! criança boba! jovem tarado!
...não me acredite, de mim não saem verdades, nem mentiras interessantes. são só palavras jogadas sem cuidado... vai tomar no cú, não me deixa fazer nem isso?? ah não, isso eu posso sim, são uma das poucas coisas que eu não preciso pagar pra usar, nem tentar agradar... gosto das palavras por isso, posso cuidá-las, estuprá-las, amá-las, odiá-las, cuspí-las, chupá-las... sei que jamais serão minhas amigas nem minhas inimigas, por isso mesmo estarão sempre comigo...
...nem me pergunte, não sei de mim nem de ninguém... nesse momento, sou só o que as palavras me fizeram
sem ponto final

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"dentro da folia um filme de terror"

quis parar e
falar que não queria
e como não faria
se a culpa que sentia
era pelo sol que tododia
ardia

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Carta ao Pai (ou apologia de uma libertação)

"O tempo não cicatriza feridas. Ele apenas alivia a dor e embaça um pouco a memória."
Sarah, filha de Therese, neta de Danielle, bisneta de Antônia

(e depois do prefácio (in)voluntário de Raduan Nassar...)

Sim, vou escrever sobre isso. Sobre isso e sobre milhares de outras coisas que você nunca vai entender. Mas isso não porque eu seja melhor que você ou não sei o que... Eu sei, eu sei como é difícil compreender que nada no mundo pode ser colocado em gradientes de pior a melhor. Sei como é difícil aceitar quem fale nesses termos, e que eventualmente tal sujeito mereça levar uns cacetes na cara, no ego, nos ossos - "Como não existe melhor nem pior? De que lado você está então seu bosta?!" ... incompreensão é compreendida como arrogância. Tudo bem, pancadas machucam apenas as árvores. "Ontem à tarde um vendaval inaudito arrancou centenas de árvores do solo na cidade de Londrina." As árvores morreram, nós sobrevivemos. Tudo que é feito de raízes nunca pode estar em um lugar que não seja aquele mesmo em que sempre esteve.... Imobilidade. É o mal de ser árvore. Sabe por que? Porque o mundo não passa de um imenso tornado que arrasta com velocidade e violência impressionantes as coisas de seus lugares originais, jogando-as para outros completamente inimagináveis. Quem cria raízes só viverá enquanto não for tocado pelo tornado. Como dizia antes,
jamais serei eu o que imaginas tu
e jamais imaginas tu o que serei eu.
E não da pra explicar
pelo simples motivo de que tu não é eu.
E mesmo que viesse a ser um dia
não adiantaria, pois eu mesmo já não o seria.
Eu me fujo assim que me encontro... sempre constantemente, no rítmo do vento. Bem, ia dizendo... como sugeriu você, que um dia sobre isso escreveria... mas não pra fazer disso o grande OH! da minha vida - "somente as árvores sofrem com os flagelos" - Disse que não entenderia, disse que importância isso não teria. O importânte é não criar raízes sobre os fantasmas, é gritar "Vão pro caralho!" tal qual Garcia Marquez fez com os seus, botando-os para correr. Édipo não ouviu o grito, também não foi ouvido, criou raízes - duras raízes, que deitaram longe na terra, até hoje - fodeu pai, mãe e a sí próprio, acabou enfim devorado pela esfínge (vento). Ah, eu não, eu que não fujo do meu destino para logo na esquina trombar com ele, impotente. Eu prefiro espalhar sementes, ovos tântricos - deles nunca se sabe o que pode vir a nascer... Eis aqui um.

Engels já dizia que a semente do Estado era a família. Na verdade a família é a primeira árvore concêntrica - a árvore genealógica. Essa árvore em nada difere das que a circundam e lhe dão sequência: árvore-escola, árvore-exército, árvore-mercadodetrabalho e por ai afora até retornar à árvore-família (nascer, ser criado, ser educado, ser disciplinado, trabalhar-produzir, casar-procriar, reiniciar o ciclo). Todas essas árvores juntas dão corpo à árvore maior que, por conta das atuais circunstâncias globais poderiamos chamar, por exemplo, de Capitalismo. A seiva-bruta que é conduzida através dessas árvores, das radículas às folhas, é sempre a mesma: o dinheiro. Não se espantem, essa afirmação é verdadeira, mas deve ser bem compreendida. A essência de uma relação arborescente com a família ou com qualquer uma dessas instituições é sempre o dinheiro, só que esse termo pode ser apreendido tanto na sua função de material mediador de trocas, quanto na sua função nominal-simbólica, representando uma série de outras relações: direitos/deveres, dádiva/dívida, relações binárias obrigativas de qualquer natureza. Numa família do tipo árvore (ou se quiserem, família-instituição), tudo está embutido numa lógica de troca, inclusive os afetos. "Te demos vida, carinho e comida. Deves retribuir com amor e obediência aos nossos desejos." Eis a assinatura de uma dívida para toda a vida, o primeiro passo infantil em direção à Sociedade de Controle de Gilles Deleuze. No fim das contas, titio Marx ainda tem razão... não passa de uma relação de propriedade. "Meu filho!" O 'meu' aqui exprime menos uma identificação de corpos do que um desejo de posse. Não poderia ser diferente sendo esse filho apenas uma folha que é continuação de uma árvore muito maior e irremediávelmente presa ao chão. Há uma saída? Sempre há. Gosto muito da palavra 'desterritorialização'. Me traz a imagem da folha se desprendendo da àrvore, não significando isso, necessáriamente, morte. Pelo contrário, diz de um movimento no sentido da mais pura intempestividade da vida! A folhinha cai no chão, se decompõe, vira adubo para a própria árvore, retorna a ela para fugir logo em seguida na forma de oxigênio. Vôa longe, descobre o mundo, ganha todas as formas e cores possíveis, podendo voltar um dia a compor a árvore, talvez como o vento, que provoca um doce farfalhar na sua copa. O que há de diferente ai do sistema de raízes-tronco-galhos (hierarquia)? O não-sistema-Rizoma (aquilo-que-foge-e-volta-para-todos-os-lados-sem-jamais-ser-capturado). É essa a unica natureza que permite uma relação saudável ou, como diria Spinoza, um 'encontro alegre' com a família. A família-rede-de-afetos no lugar da família-instituição (tal qual nos ensina a excentricidade da família de Antônia). Contato rizomático ao invés da prisão da dádiva e da dívida. Aonde esta a moral e a disciplina, colocar o motor do desejo e do acaso, tal qual é o real funcionamento da vida.