quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

...e se eu escrevesse aqui agora alguma coisa assim quase que sem sendido e sem demora sei que não faria mal nem bem, apenas ficaria mais fora do que dentro uma qualquer coisa que não da pra conter em mim.
...essa coisa é assim, se extravaso sou besta, se escondo sou careta e se esqueço sou normal.
...tenho em mim ainda essa coisa assim besta-careta-e-normal, mas sou louco e sensual se disparo em conta-gotas um desamparo emocional num verbo não racional, bem além do causal e bem aquém do casual.
...suei a noite toda sabia? tentei pular de dois prédios de dezessete andares ontem de manhã... porra, o chão insiste em me acordar!
...Tudo mentira!!! velho louco! criança boba! jovem tarado!
...não me acredite, de mim não saem verdades, nem mentiras interessantes. são só palavras jogadas sem cuidado... vai tomar no cú, não me deixa fazer nem isso?? ah não, isso eu posso sim, são uma das poucas coisas que eu não preciso pagar pra usar, nem tentar agradar... gosto das palavras por isso, posso cuidá-las, estuprá-las, amá-las, odiá-las, cuspí-las, chupá-las... sei que jamais serão minhas amigas nem minhas inimigas, por isso mesmo estarão sempre comigo...
...nem me pergunte, não sei de mim nem de ninguém... nesse momento, sou só o que as palavras me fizeram
sem ponto final

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"dentro da folia um filme de terror"

quis parar e
falar que não queria
e como não faria
se a culpa que sentia
era pelo sol que tododia
ardia

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Carta ao Pai (ou apologia de uma libertação)

"O tempo não cicatriza feridas. Ele apenas alivia a dor e embaça um pouco a memória."
Sarah, filha de Therese, neta de Danielle, bisneta de Antônia

(e depois do prefácio (in)voluntário de Raduan Nassar...)

Sim, vou escrever sobre isso. Sobre isso e sobre milhares de outras coisas que você nunca vai entender. Mas isso não porque eu seja melhor que você ou não sei o que... Eu sei, eu sei como é difícil compreender que nada no mundo pode ser colocado em gradientes de pior a melhor. Sei como é difícil aceitar quem fale nesses termos, e que eventualmente tal sujeito mereça levar uns cacetes na cara, no ego, nos ossos - "Como não existe melhor nem pior? De que lado você está então seu bosta?!" ... incompreensão é compreendida como arrogância. Tudo bem, pancadas machucam apenas as árvores. "Ontem à tarde um vendaval inaudito arrancou centenas de árvores do solo na cidade de Londrina." As árvores morreram, nós sobrevivemos. Tudo que é feito de raízes nunca pode estar em um lugar que não seja aquele mesmo em que sempre esteve.... Imobilidade. É o mal de ser árvore. Sabe por que? Porque o mundo não passa de um imenso tornado que arrasta com velocidade e violência impressionantes as coisas de seus lugares originais, jogando-as para outros completamente inimagináveis. Quem cria raízes só viverá enquanto não for tocado pelo tornado. Como dizia antes,
jamais serei eu o que imaginas tu
e jamais imaginas tu o que serei eu.
E não da pra explicar
pelo simples motivo de que tu não é eu.
E mesmo que viesse a ser um dia
não adiantaria, pois eu mesmo já não o seria.
Eu me fujo assim que me encontro... sempre constantemente, no rítmo do vento. Bem, ia dizendo... como sugeriu você, que um dia sobre isso escreveria... mas não pra fazer disso o grande OH! da minha vida - "somente as árvores sofrem com os flagelos" - Disse que não entenderia, disse que importância isso não teria. O importânte é não criar raízes sobre os fantasmas, é gritar "Vão pro caralho!" tal qual Garcia Marquez fez com os seus, botando-os para correr. Édipo não ouviu o grito, também não foi ouvido, criou raízes - duras raízes, que deitaram longe na terra, até hoje - fodeu pai, mãe e a sí próprio, acabou enfim devorado pela esfínge (vento). Ah, eu não, eu que não fujo do meu destino para logo na esquina trombar com ele, impotente. Eu prefiro espalhar sementes, ovos tântricos - deles nunca se sabe o que pode vir a nascer... Eis aqui um.

Engels já dizia que a semente do Estado era a família. Na verdade a família é a primeira árvore concêntrica - a árvore genealógica. Essa árvore em nada difere das que a circundam e lhe dão sequência: árvore-escola, árvore-exército, árvore-mercadodetrabalho e por ai afora até retornar à árvore-família (nascer, ser criado, ser educado, ser disciplinado, trabalhar-produzir, casar-procriar, reiniciar o ciclo). Todas essas árvores juntas dão corpo à árvore maior que, por conta das atuais circunstâncias globais poderiamos chamar, por exemplo, de Capitalismo. A seiva-bruta que é conduzida através dessas árvores, das radículas às folhas, é sempre a mesma: o dinheiro. Não se espantem, essa afirmação é verdadeira, mas deve ser bem compreendida. A essência de uma relação arborescente com a família ou com qualquer uma dessas instituições é sempre o dinheiro, só que esse termo pode ser apreendido tanto na sua função de material mediador de trocas, quanto na sua função nominal-simbólica, representando uma série de outras relações: direitos/deveres, dádiva/dívida, relações binárias obrigativas de qualquer natureza. Numa família do tipo árvore (ou se quiserem, família-instituição), tudo está embutido numa lógica de troca, inclusive os afetos. "Te demos vida, carinho e comida. Deves retribuir com amor e obediência aos nossos desejos." Eis a assinatura de uma dívida para toda a vida, o primeiro passo infantil em direção à Sociedade de Controle de Gilles Deleuze. No fim das contas, titio Marx ainda tem razão... não passa de uma relação de propriedade. "Meu filho!" O 'meu' aqui exprime menos uma identificação de corpos do que um desejo de posse. Não poderia ser diferente sendo esse filho apenas uma folha que é continuação de uma árvore muito maior e irremediávelmente presa ao chão. Há uma saída? Sempre há. Gosto muito da palavra 'desterritorialização'. Me traz a imagem da folha se desprendendo da àrvore, não significando isso, necessáriamente, morte. Pelo contrário, diz de um movimento no sentido da mais pura intempestividade da vida! A folhinha cai no chão, se decompõe, vira adubo para a própria árvore, retorna a ela para fugir logo em seguida na forma de oxigênio. Vôa longe, descobre o mundo, ganha todas as formas e cores possíveis, podendo voltar um dia a compor a árvore, talvez como o vento, que provoca um doce farfalhar na sua copa. O que há de diferente ai do sistema de raízes-tronco-galhos (hierarquia)? O não-sistema-Rizoma (aquilo-que-foge-e-volta-para-todos-os-lados-sem-jamais-ser-capturado). É essa a unica natureza que permite uma relação saudável ou, como diria Spinoza, um 'encontro alegre' com a família. A família-rede-de-afetos no lugar da família-instituição (tal qual nos ensina a excentricidade da família de Antônia). Contato rizomático ao invés da prisão da dádiva e da dívida. Aonde esta a moral e a disciplina, colocar o motor do desejo e do acaso, tal qual é o real funcionamento da vida.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Morre Abraxas


Deus.... O universo começa!
Ele cria tudo e seus anjos. Do gueto comandado a rédeas de fogo pelo senhor absoluto, desprende-se um servo prodigioso. Quem poderia acumular tanto poder quanto o próprio Deus? Quem um dia se atreveria a desobedecê-lo? Ao anjo da rebeldia, ao primeiro espírito anti-tirânico da história da hisrória, foram atribuídas todas as características de sordidez e ruína. O seu reino marginal foi chamado de Inferno!
Mêdo e desespero fizeram você sentir de lá... tudo o que é feio, fedido e insuportável vem de lá! O reino da liberdade é o oposto do reino da paz. Se atreverá você a querer ter tanto quanto o teu senhor? Desobedecê-lo não seria o mesmo que desobedecer ao próprio Deus?!

Não se desobedece a quem detém todo o saber, e jamais se tira dele o conhecimento. Não é a toa que a primeira árvore plantada na terra pelo primeiro terrosista-poeta dos primórdios judaico-cristão (tataravós do capitalismo) fosse a raiz da rebeldia e da desordem por excelência. Seu fruto: a questão humana. A maçã cravada com o ponto de interrogação é o grande alvo dos empedernidos controladores desse período e dessa civilização (os nossos?).
Ai esta uma questão central para os estudos religiosos. Passamos séculos demais batendo cabeças sobre a existência ou não de Deus, ou se um deus pode ser melhor que o outro. Não se deve fazer a história das coisas sobre as quais se deve provar a existência, nessas acredita-se ou não, e acabou. Devemos fazer a história do que existe. O que existe nesse caso? Pessoas falando sobre Deus. Existe o discurso de Deus, esse discurso serve aos interesses de certas pessoas, oprime outras, exerce poder, exerce libertação, etc. Nesse discurso acredita-se ou não, por que? Como ele se transforma através da história (ou seja, através das ações e pensamentos dos homens e mulheres), quais forças o imprimem nos corpos e quais forças ele movimenta?
Deve haver a intenção em alguns que fazem ressonar o discurso-poder do bem (justiça, servilidade e passividade) contra o mal (caos, subversão e libertinagem) de impedir a (re)conciliação dos opostos complementares. Um esforço de ruptura do yin-yang. O yang prevalece sobre o yin e o homem-Deus sobre a mulher-Bruxa, e todos os que são homens-mulheres tem de se dividir e oprimir sua metade perversa para se adequar à lei da normalidade. Só apartir daí é que se atribuem os valores políticos transcedentais de bem e mal a cada uma das partes e da necessidade do primeiro sobrepujar o segundo.

A mulher comeu o fruto, ela foi a primeira a fazer a articulação insurrecta e perigosa com a natureza. É ela o primeiro demônia a ser domado, uma subjetividade selvagem a ser encarcerada dentro de seu corpo e junto com ele. Porque tudo nela é vil e nefasto. Homem toma cuidado com ela, ela esta sempre pronta a te ludibriar, pois ela conhece coisas que estão fora do seu encordeirado conhecimento racional. Ela domina os símbolos do mal, sente-os, compreende-os em uma dimensão da vida que você nunca será capaz de captar, e nem deve! Ela conversa a lingua dos animais, faz sexo com as plantas e faz poções com ervas epifânicas e afrodisíacas ilegais. Dizem por ai que ela tem estreito contato com o próprio Lúcifer, que é, ele mesmo, uma mulher! Por isso usa a única coisa que tem a mais que ela... tua força homem, esmaga ela com tua força! Tudo receberá em troca de manter a ordem e a justiça, mas somente conseguirá isso tomando a mulher como tua escrava. Dela só arrancará suas crias, seus frutos, sua casa limpa e seu gozo fácil... Foi Deus quem disse, não fui eu.


...
Retornar ao caminho do equilíbrio, destruir o bem e o mal, reconciliar o yin-yang. Engravidar-se do espírito de Abraxas...

Já devia ter seus oitenta e poucos anos, dizia que já teve de tudo um pouco na vida: amor, conhecimento e um pedaço de terra isolado dos prédios e postes de energia, onde plantava folhas de tabaco, maconha, e todos os vegetais de que se alimentava, preparados com mais fina arte da feitiçaria feminina; tinha um lago onde se banhava e folhas caídas que amorteciam seus pés descalços. Não contava como foi obrigado a desligar-se de todas essas felicidades ou se foi esse o seu desejo. Do seu antigo mundo só trazia um violão e algumas páginas rabiscadas com as letras de sua eterna e etérea amante. Caminhava sózinho em sujos trapos, com os cabelos e barbas brancos e emaranhados que apenas deixavam escapar os olhos como fonte de expressão. É claro que poucos davam ouvidos a suas débeis palavras, ou por soarem esquizofrênicas, ou por propagarem o som e o cheiro da cachaça; mas a maioria tinha mesmo dificuldade em enxergar que tal figura existia no mundo. Um desses dias eu caminhava apressado em meio a furiosa multidão metropolitana quando fui arrebatado por uma fala sua, aterradora, deliciosa, profundamente embebida em resíduos de vinhos, fungos de bosta de vaca e em desesperada sabedoria.

"Éramos o maior amor que já havia brotado nesse imenso mundo de concreto e aço. Como tão grande amor tinha se tornado demasiadamente imenso para se sustentar sem que explodisse, resolvemos nos multiplicar para dividir nosso amor em um corpo que seria seu, sem deixar de ter nós. Nasceu nossa filha... sua lembrança agora me trás comoção e admiração. Comoção pela bela inocência da criança que alimentamos com caldos e versos, músicas e ouvidos. Admiração pela mulher impressionante em que ela se transformou. Saiba que falar que ela era uma Mulher dispensa maiores descrições, pois ser mulher é uma força que nós, estúpidos pintudos, jamais poderemos compreender, e o máximo que podemos fazer é admirar, quando percebemos estar diante de uma. Devemos caminhar junto dela, pois só assim podemos aprender alguma coisa sobre como existir na natureza. Minha filha se tornou uma dessas mulheres, que te segura pela mão e te abre as portas do mundo através de símbolos que você nunca viu e linguas que você nunca pensou que pudessem existir. você diz: 'nunca antes imaginei que essas folhas falassem, nunca imaginei que tantas palavras inúteis pudessem ser poupadas com esse carinho, com esse gesto que revela em si só milhões de frases, afetos, verdades... e quantas pessoas poderiam ser libertadas pela calma pujança de sua voz, quantas guerras não poderiam cessar pela ação de sua alquimia culinária...' .... Não poderia ter sido muito diferente, sendo filha de sua mãe... essa sim, a mulher que eu mais admirei e com quem eu mais aprendi a ser quem eu sou. Devo confessar que talvez por puro ciúmes remetia a lembrança de minha filha sempre à sua imagem infantil, à idéia serena de 'minha cria', àquele rostinho brincalhão que - devir-pai-frustrado meu - não consegui modelar de acordo com a minha idéia. Muito melhor assim, ela tornou-se, por si mesma, 'o que é', como tinha que ser, maior e mais forte que tudo aquilo que viveu, superior a todos os esforços de controlá-la. Se tornou Mulher, como sua mãe. E, como sua mãe, também não sofreu pouco...
Aconteceu assim, nossa filha, nossa mulher, tinha de ser a mais velha, mais velha do que ele, nosso filho, que tinha de ser mais novo. Você quer se preocupar quando vê isso acontecer. O garoto era eu! Como eu, via o mundo do avesso, Como eu tinha uma potência de criação e destruição tão agressiva e incontrolável quanto preguiçosa e medrosa - eu já via acontecer - era preciso haver algo que ligasse ele à Terra, algo que ligasse nele a metéria e o espírito, uma ligação que sua estreita visão pintudinha não lhe permitiria. Não se se foi mesmo por causa disso, nem importa, só sei que foi uma das coisas mais belas que eu já vi em toda a minha vida. Não que não tivessemos tentado lutar contra no começo, é óbvio que sim, por mais que queiramos nos declarar animais, ainda somos cristãos demais na nossa espinha-dorsar, sabe? Mas quando se percebe o quanto é limitado, já é o primeiro passo para desatar as amarras... quando enfim consegui me livrar de certos moralismos tão enraizados nos meus ossos, pude sentir uma expolosiva emoçao, como se dois prédios enormes desabassem, revelando o sol que há muito se escondia atrás deles, entende? Dois arquetipos maiores da nossa humanidade máscula e policial: O primeiro, a bruxa-mãe, a generosa porém selvagem e incompreensível Mulher, que é também a natureza, ambas escravizadas, violentadas e silenciadas por quase todos os anos que a nossa história insiste em contar. O segundo, o pobre homenzinho que tudo quer dominar simplesmente porque nunca quis ter saido do lugar onde estava antes de começar a existir. Razão e Édipo, o que tudo controla e o que tudo explica. As sinas às quais estão submetidos mulher e homem por toda a eternidade, para sempre apartados. Será que não há felicidade, será que não há amor? Há! E foi com a queda desses dois prédios, foi da ruína dessas duas estruturas que irrompeu a luz. E são essas as imagens que me vem à mente quando lembro daquela tarde... da tarde em que vi nossos filhos fodendo na margem do lago, envolvidos em folhas secas e lama, conjurando seus corpos, se conhecendo, se invadindo, se completando, como se retornassem à terra. E retornaram, por um minuto... por alguns anos estivemos ali, livres. Mas não se vive fora desse mundo rapaz. Éramos um amor, eramos uma coisa assim que a esmagadora maioria da humanidade jamais conheceu... como temiamos no início, que nosso amor se tornasse grande demais e por isso o dividímos, agora nosso amor era maior que qualquer coisa, como podia sobreviver num mundo onde qualquer coisa é maior que o amor? O mundo explodiu nosso muito imenso amor, mas ter vivido aquele curto despertar foi semelhante à contemplação de uma supernova, seu efeito nos nossos corpos foi do mais explosivo e duradouro dos orgasmos... O mundo destruiu esse amor... você já viu quantas vezes esse amor já destruiu o mundo?..."

Súbito calou-se, perdeu-se no seu costumeiro olhar de louco e seguiu rompendo as ruas do deserto urbano com violência e poesia. Tinha acabado de destruir o meu mundo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

esquizofrenoverbos (II)

eu fiquei por aqui
sou d'aqui
não fugi
não sei se é assim sempre...

o sóbrio sopro silvestre
sabe que salva
mas se eu sigo sendo centro
é só um dia e não num outro
que eu sinto seu sabor
o resto deles são prisão de mim

esquizofrenoverbos (I)

pela primeira vez
aquele como aquela
corre foge longe
fogo louco pelas bordas
das mancas cordas coxas bambas...
irêmos vencer!!
algum lugar vai chegar
sempre além ainda que aquém -
Prà quem?

sem ter sóbrio mêdo
corpo pelo qual se bebe pêlo
não ali, não aqui
não em lugar nenhum
não. nenhum lugar Há não

houve/haverá
e que(m) matará?
por lugar não ter acá?